Fale
sobre o conceito da “Visionaire”.
A ideia original era publicar materiais
inusitados. Na época os fotógrafos
clicavam para as revistas mais comerciais,
mas tinham trabalhos pessoais incríveis:
paisagens, retratos, nus artísticos,
etc. Mas ninguém queria publicar
esse tipo de coisa. Então
criamos uma plataforma para esse
tipo de conteúdo.
Porque a ênfase
na palavra “original”?
Alguma coisa mudou?
A revista nasceu em 1991, muito
tempo se passou. Hoje é tudo
diferente, existem várias
publicações independentes
no mercado, os fotógrafos
conseguem expor seus trabalhos em
galerias, conseguem lançar
livros de fotografias, nada disso
era possível no começo
dos anos 90. Tudo mudou.
Para melhor ou
pior?
Acho que sempre pra melhor. Eu acho
que uma mudança é
sempre bem vinda, às vezes
pode até parecer ruim, mas
no fim é possível
extrair o lado bom de qualquer transformação.
Quanto mais espaço criativo
temos, melhor. Hoje, o conceito
original da “Visionaire”
é irrelevante.
Como assim?
Não foi uma coisa consciente,
evoluímos com o tempo. Nossa
razão de ser evoluiu. Hoje,
mais do que apenas oferecer um espaço
para os artistas mostrarem seus
trabalhos, nossa missão é
desafiá-los.
Dê um exemplo.
Por exemplo a edição
#42, intitulada “Scent”
[cheiro, em português]. O
desafio que demos aos artistas foi
o de criarem conceitos sobre o cheiro
de suas imagens, o que é
uma coisa super esquisita, além
de ser um desafio que nenhuma outra
revista do mercado poderia oferecer.
O mesmo tipo de desafio aconteceu
nas edições #47, intitulada
“Taste” [sabor, em português]
– qual o gosto da sua imagem?
–, e “Sound” [som,
em português], em que os artistas
tinham que gravar um som de um minuto
de duração que representasse
a sua obra. Essa é a nossa
essência hoje: desafiar a
criatividade dos colaboradores.
Por falar em colaboradores,
o time da “Visionaire”
é sempre do alto escalão.
Como é gerenciar os superegos
dessas pessoas?
Preciso ter muita paciência,
e muita calma.
Eles são
como multinacionais, fazem rios
de dinheiro, não têm
tempo pra nada…
Então, meu trabalho é
inventar um tema tão desafiador
e instigante que ninguém
vai conseguir dizer não ao
nosso convite. É extremamente
complicado ter alguém como
a Yoko Ono colaborando com a sua
revista – ela é a pessoa
mais ocupada do mundo, faz zilhões
de coisas que dão muito mais
dinheiro, então porque ela
perderia seu precioso tempo fazendo
algo, de graça, para a “Visionaire”?
Por que as nossas ideias são
tão insanas que nenhum artista
consegue recusar!
Fazer uma edição
nessas condições não
deve ser muito simples.
Nao é mesmo. Uma única
edição da “Visionaire”
pode levar até oito meses
para ficar pronta.
Uau! Oito meses?
Sim. E publicamos até 3 edições
por ano.
E cada revista
tem que ser um desafio único.
Viu a encrenca que é minha
vida? (risos) Pessoalmente não
gosto de mudanças, sou capricorniana,
gosto de rotina, adoro ter horário
para chegar e sair do trabalho,
gosto de ter uma mesa com tudo no
lugar, odeio viajar, minha agenda
tem que estar sempre muito organizada.
Mas ao mesmo tempo, do ponto de
vista da criação,
a mudança é essencial:
na “Visionaire” a cada
edição o layout muda,
a embalagem muda, o modo de fazer
muda.
Muda de acordo
com a criatividade ou de acordo
com o patrocinador?
Cada projeto da “Visionaire”
tem apoio de um patrocinador. Já
fizemos parcerias incríveis
com Calvin Klein Collection, Louis
Vuitton, Comme des Garçons,
Smart. Mas para um patrocinador
firmar parceria com a gente é
preciso muito estudo, tem que ter
uma relação direta
e saudável com a nossa produção
criativa. Pra gente, a definição
de publicação vai
além da tinta no papel. Tivemos
uma edição publicada
inteiramente no formato de toy arts
(”Visionaire” #50, “Artist
Toys”) em que usamos um objeto
tridimensional no lugar do papel.
Para nós, isso é um
tipo de publicação
editorial. A edição
“2010?, por exemplo, vem no
formato de uma tela digital que
contém 365 trabalhos de arte,
um para cada dia do ano. Apesar
de ser um aparelho eletrônico,
ele roda um conteúdo, então
é uma publicação.
Então o
futuro da publicação
editorial está nas novas
tecnologias?
O futuro está em explorar
as novas possibilidades de publicação,
e isso muitas vezes vai ao encontro
das novas tecnologias. A “Visionaire”
é diferente de todas as outras
revistas porque é uma publicação
que você pode adquirir agora,
guardar, e daqui cinco anos vai
ter vontade de abrir de novo e ainda
vai poder apreciar o conteúdo.
Isso é fato:
tem muita gente que coleciona a
revista como se fosse uma obra de
arte.
A revista não é uma
obra de arte, mas sim uma plataforma
onde artistas podem se expressar.
Eu acho que a ‘Visionaire’
é legal. Só isso.
Mas se eu colocasse
essa tela digital (edição
“2010?) na sala da minha casa,
as pessoas achariam que é
uma obra de arte.
Fico lisonjeada, mas continuo afirmando
que é apenas uma publicação
editorial.
Uma publicação
muito bem sucedida, que até
gerou novas revistas, caso da “V”
e da “VMan”.
As duas revistas são como
filhas da “Visionaire”.
Em 2001, quando a revista completou
10 anos de existência, percebi
que tínhamos um veículo
livre para se expressar artisticamente,
mas ao mesmo tempo recebíamos
pautas incríveis e que não
cabiam dentro das edições
temáticas, então foi
natural criarmos extensões
que fossem mais flexíveis,
mais simples no formato, de distribuição
mais fácil e rápida
assimilação do público.
Além disso, a “V”
e a “VMan” são
ótimos canais para anunciantes.
Então o
dinheiro vem delas?
Na “Visionaire” só
trabalhamos com grandes patrocinadores,
mas não no formato tradicional
de anúncio. Então,
quantitativamente, a “V”
e a “VMan” arrecadam
muito mais. A coisa começou
unissex, mas como o mundo da moda
é naturalmente mais feminino,
resolvemos fundar a revista masculina,
que só sai 4 vezes ao ano,
sendo ainda mais simples e mais
fácil de distribuir.
(QUASE) TUDO SOBRE CECILIA DEAN
Nome
Cecilia Gratian Dean
Nascimento
Califórnia, 10 de janeiro
de 1969
Animais
Dois gatos e um cachorro. A gatinha
mais nova se chama Chechi, o gato
adulto é o Pookie. E o cachorro
atende pelo nome de Mott.
Flor
Crisântemo.
Comida
Pato, foie gras, picadinho. Amo
carne, mas é impossível
comer carne boa nos EUA. Então
quando viajo a países como
o Brasil, como carne como se não
houvesse o amanhã.
Bebida
Caipirinha sem açúcar.
Por que sem açúcar?
Não gosto de coquetéis
doces, prefiro as bebidas azedas
ou amargas, do tipo que te fazem
despertar a cada gole. Adoro Dirty
Martini e Mojito.
Perfume
Não uso. Na verdade, às
vezes eu uso, a gente fez uma edição
há alguns anos chamada “Scent”
e uma das fragrâncias era
chamada “medo”. É
pura essência de dormideira
[uma flor, nome científico:
Mimosa pudica] e tem um cheiro estranho.
Gosto de exalar cheiro de medo.
Medo
Sempre tive medo de passar fome
e não ter onde morar. Ironicamente,
meu atual namorado é dono
de restaurantes e já teve
uma construtora, então acho
que consegui superar meus medos.
Nunca vou passar fome saindo com
um dono de restaurantes, e ele também
sabe como construir casas.
Maior desafio
Tenho o desafio constante de criar
ideias geniais, e quanto mais ideias
eu tenho, mais difícil se
torna ter novas ideias.
Maior recompensa
Em 2011 vamos celebrar 20 anos,
para mim é sensacional, quando
começamos eu não tinha
ideia que chegaríamos tão
longe. Essa é a maior recompensa.
Sonhos
Eu gostaria de ser multimilionária,
mas nao sei se isso vai acontecer.
O que você
faria com tanto dinheiro?
Contrataria mais equipe, faria mais
caridade – eu faço,
mas é dificil balancear com
o trabalho, eu tenho uma equipe
que preciso pagar. Se eu tivesse
mais dinheiro, teria mais equipe
e mais tempo para caridade.
Dentro do seu armário
No hotel ou na minha casa?
No hotel
Pouca coisa.
Tipo?
Uma blusa da Ohne Titel, um par
de calças Balenciaga que
tenho há mais de 10 anos,
saltos da Calvin Klein, camisa e
saia Marc Jacobs.
E em casa?
Tenho muitas camisas com babados
da Givenchy – amo babados.
Tenho muitas calças pretas
e muitos saltos altos. Eu amo saltos
altos. Meu designer de sapatos favorito
é um jovem inglês chamado
Nicholas Kirkwood. Também
amo os tricôs da Rodarte.
Tenho muita coisa do Margiela. E
uso Helmut Lang todos os dias.
As 3 últimas
compras.
1) Camisa branca com babados Givenchy
2) Um retrato da fotógrafa
Nan Goldin
3) Uma escultura de parede do artista
Cat Chow
Seu lema
Meu lema é: porque escolher
se você pode fazer tudo. As
pessoas sempre dizem que você
tem que fazer isso ou aquilo, escolher
entre A, B ou C. Eu acho que a gente
tem que fazer tudo ao mesmo tempo.
Obviamente você precisa editar,
esse é meu outro lema: editar
é o segredo da vida. Então
saiba editar, mas faça tudo
o que tiver vontade.
Futuro
Não tenho ideia de como vai
ser o meu futuro. Mas sei que ele
só depende de mim.
+ Site oficial
com todas as edições
da “Visionaire”: visionaireworld.com
Exposição:
“Visionaire – Para Todos
os Sentidos”
QUANDO 11 de maio de 2010, às
20h
Até 13 de junho de 2010,
de terça a domingo das 11h
às 20h
Entrada franca
Instituto Tomie
Ohtake
ONDE Av. Faria Lima, 201 (Entrada
pela Rua Coropés) –
Pinheiros / SP
CONTATO (11) 2245.1900
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