| Depois
que Charles Miller trouxe o futebol
para o lado de cá do Atlântico,
isso em 1894, a história
do esporte ganhou graça,
ginga e nuances supertropicais.
Mas o amarelinho tão característico
dos uniformes nacionais só
apareceu em 1954, substituindo as
oito tentativas anteriores que despontaram
para o mundo a partir de 1914. Por
sinal, foi naquele ano que a estreia
da seleção tupiniquim
aconteceu, num memorável
27 de julho, diante dos ingleses
do Exeter City. Na partida, Oswaldo
Gomes, vestindo polo com amplas
faixas azuis nas mangas, calções
brancos e meiões pretos,
marcou o primeiro gol do Brasil.
E então a terra destinada
aos Deuses da Bola tingiu os gramados
com a alegria contagiante típica
dos cordões carnavalescos.
O futebol valeu-se dos toques mulatos
e dos dribles desconcertantes que
colocavam os “Joãos”
no chão. O verde e o amarelo
dividiram em maxi listras verticais
o conjunto de 1916. A experiência
não agradou e acabou com
a concepção de um
modelito alvinegro, convertido mais
tarde em alviverde.
Nas duas décadas seguintes
– de 1919 a 1938 –,
o selecionado aderiu à moda
europeia, escolhendo trajes bicolores
para as suas camisa branca e bermuda
azul. Com o crescente entusiasmo
causado por Leônidas da Silva
(aka Diamante Negro), inventor do
gol de bicicleta, o jeito foi abandonar
as considerações do
velho continente para inverter a
lógica, a começar
pelo vestuário que, simbolicamente,
teve as cores das peças trocadas
de lugar, ficando a camisa azul
e a bermuda branca.
Essa camisa azul roubou a cena
até 1944, sendo desbancada
pela composição off-white
com golas celestes. Mas como o neutro
nada tem a ver com a personalidade
explosiva dos latinos, o monocromático
acabou banhado, novamente, pelo
azulão. A tonalidade só
foi para a reserva por causa da
Copa perdida em pleno Maracanã,
em 1950, ainda que até às
vésperas de 1954 tenha resistido
bravamente.
Disposto a deixar no passado os
algozes uruguaios, o jornal carioca
“Correio da Manhã”
promoveu um concurso para a criação
do novo uniforme oficial. Nesta
empreitada, a tarefa de traduzir
o sentimento da nação
coube a Aldyr Garcia Schlee, gaúcho
nascido, ironicamente, no meio fio
entre o Brasil e o Uruguai.
Idealizador do emblemático
calção azul com veios
brancos e camisa amarela com detalhes
em verde, Aldyr já não
vê motivos para comemorar:
“A camisa canarinho, tão
bonita e tão vilipendiada
- que, além de vestir nossa
discutível e muitas vezes
vitoriosa seleção
de futebol, foi transformada em
símbolo nacional brasileiro
– hoje habita e povoa todos
os cantos do planeta, remetendo-nos
a uma necessidade de manifestação
de patriotismo que me desagrada
e com a qual não posso concordar”,
disse em entrevista a um site europeu.
Protagonista de quatro das cinco
Copas conquistadas pelo Brasil (1962,
1970, 1994 e 2004) – ausente
apenas em 1958, por conta da final
contra a Suécia, que arriscou
o mando de amarelo –, a combinação
sobreviveu às tendências
e aos modismos, ainda que tenha
sido vítima de muitos experimentalismos.
Quem não se lembra, por exemplo,
dos shorts agarradinhos, semidesbotados,
com cara de país subdesenvolvido,
usados pelos rapazes nas décadas
de 1970 e 1980?
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