Você
não acha que as suas performances
como artistas são um pouco…
hmmm… cabeçudas?
Hahahaha! Adoro o termo “cabeçudo”,
mas o que é um trabalho cabeçudo?
É um trabalho que tenta fazer
com que as pessoas pensem fora dos
padrões gastos do cotidiano?
É um trabalho que exige pensamento?
Acho que meu trabalho em geral pede
uma disponibilidade e uma abertura
das pessoas, sim. Se elas não
se aproximam do trabalho com essa
atitude, o trabalho não existe.
Claro, em alguns trabalhos eu cito
filósofos, poetas, questiono
a história da arte, teoria
da linguagem, mas não acho
que exija do público esse
conhecimento específico,
acho que meu trabalho vive muito
bem sem “bula”, sem
o conhecimento das teorias de liguagem,
filosofia, etc, que entram em jogo
no meu processo criativo. No entanto,
o meu trabalho não vive sem
a disponibilidade do público.
Não quero trabalhos que possam
ser vistos e digeridos em dois segundos.
Você não
acha que arte deveria se popularizar
mais?
A arte deve ser o lugar de pensamento
público por excelência,
e desta forma inerentemente política.
O que não quer dizer que
ela tenha que ser simplista ou fácil.
Muito pelo contrário. Ela
deve ser de digestão difícil.
Ela deve dar poder às pessoas,
e fazê-las perceber e questionar
o poder que elas têm, e isso
pode incomodar. O poder de questionamento,
de diálogo, de interferir
na sociedade, mas para isso o público
deve ter uma atitude aberta em relação
a ela. É interessante perceber
por exemplo que os maiores exemplos
de arte “difícil”
que temos na história tiveram
na verdade as suas origens em uma
tentativa de popularizar a arte.
Penso aqui em Malevich, Mondrian,
Ad Reinhardt, a arte conceitual,
o minimalismo, entre outros…
Todos tentaram tirar a aura e o
distanciamento que a arte tem para
aproximá-la do público,
mas o público (ou o mercado?),
com medo de ter em mãos esse
poder, acabou criando para esses
movimentos uma aura maior ainda.
Quem são
seus ídolos?
Ludwig Wittgenstein. De resto, Paul
Celan, Samuel Beckett, Louise Bourgeois.
Mas não gosto de ídolos.
Por que eles/elas
são seus ídolos?
L.W.: Pelas opções
de vida que teve e pela solidez
de seu caráter. Pelo menos
pelo que o seu biógrafo mostrou.
Pelo questionamento radical, mesmo
que às vezes problemático,
às estruturas do pensamento
e da linguagem que o seu pensamento
filosófico trouxe.
P.C.: Pela sua poesia.
S.B.: Pela solidez e qualidade do
seu trabalho.
L.B.: Pela sua persistência.
Não sou grande fã
do seu trabalho, mas ela é
para mim sempre um exemplo de força
e persistência.
Onde uma pessoa
comum que está interessada
em arte deve começar a procurar?
Em casa, no seu cotidiano. Questionando
e observando as suas atitudes e
padrões cotidianos. Sempre
penso em Joseph Beyus e seu trabalho
“A revolução
somos nós”. Depois,
acho que hoje a internet oferece
bastante conhecimento básico.
Além de, obviamente, visitar
galerias e museus.
A partir daí, não
faltam cursos razoáveis de
estética e história
da arte, apesar de eu achar que
a maioria deles é tão
antiquada que pode destruir um processo
que seria muito mais interessante
se fosse solitário.
Quais são
as galerias boas de São Paulo?
Luisa Strina, Fortes Villaça,
Vermelho, Triângulo, Leme.
Moda é arte?
Moda é moda, arte é
arte, mas gosto quando tudo fica
fluido, apesar de no meu trabalho
mesmo isso acontecer pouco.
Moda é business?
Sim.
Arte é business?
Sim.
O que é
arte?
Um meio complexo de comunicação
e questionamento; um ramo da cultura
humana, um meio de expressão,
um trabalho.
O que é
moda?
Um meio complexo de comunicação
e questionamento, com funções
específicas, em geral bastante
relacionado a uma cultura, e um
trabalho.
O que é
business?
A troca de produtos – abstratos
ou não – vinculados
aos desejos de uma sociedade, com
valor agregado diretamente relacionado
a intensidade deste desejo.
E pra terminar,
um recado, qualquer recado, para
uma pessoa, qualquer pessoa.
Que entrevista difícil, André!!!
Signo.
Câncer.
Ascendente.
Sagitário.
Pecado.
Acreditar em pecados.
Comida.
Qualquer coisa vegan. Sério,
gosto de tudo, especialmente comida
mediterrânea, árabe,
espanhola e italiana.
Um sonho realizado.
Visitar a Islândia, que virou
meu lar de coração.
Amo o lugar, a natureza, as pessoas,
meus amigos de lá. Apesar
de não nos vermos tanto,
eles têm um lugar especial
no meu coração. Acho
que o maior sonho na verdade, e
que se relaciona com esse, é
o de poder ter amigos espalhados
pelo mundo e ser capaz de me comunicar
com eles, e entender as especificidades
de cada um.
Um sonho a se realizar.
Se eu começasse a falar,
não ia parar mais. Tenho
muitos.
Um medo que superou.
Não tenho muitos medos, mas
ficar nu em público era um
dos poucos que me afligiam, e um
dos maiores. Superado.
Um medo que prefere
nem lembrar.
Já me confrontei com esse
medo, e fui obrigado a superá-lo.
A morte de minha mãe.
Animal de estimação.
Quatro gatos e muitos peixes em
dois aquários.
Bebida.
Água.
Copyright ou copy
left?
Copy left. Hoje o mundo é
cheio de contextos e situações
diferentes para que as cópias
permaneçam cópias
autênticas por muito tempo.
No entanto, na hora de criar, não
olho muito pra fora.
Viagens.
Islândia (Reykjavík
e adjacências), a última
viagem para Paris, que durou 6 meses,
e Israel. Islândia porque
era um sonho de criança,
porque tive contato com pessoas
especialíssimas e muito carinhosas,
e pela natureza. Paris porque tive
a oportunidade de experimentar melhor
a cidade, e conhecer pessoas que
foram muito importantes para mim.
Israel pela constante tensão
social que me trazia para uma constante
consciência sócio-política
o tempo todo, além de o país
ter uma atmosfera de espiritualidade
inacreditável. Impossível
não ficar contaminado e impressionado
com isso. Além do que, estar
em um deserto é uma experiência
especialíssima.
Se não fosse
o que você é, você
gostaria de ser um:
a) índio
americano
b) esquimó
c) cigano do leste
europeu
d) chefe da tribo
ndebele
e) boia fria
f) cowboy
Difícil.
Prefiro ainda continuar sendo o
que eu sou experimentar um pouco
das vidas destas opções
todas. Gosto de vivenciar e experimentar
culturas diferentes, e absorver
um tanto delas pro meu cotidiano.
Já convivi e continuo convivendo
com pessoas muito diferentes, sou
aberto a isso, gosto de ouvir o
que elas têm a dizer e trocar
experiências com elas. Por
isso acho que não sonho muito
em ser alguém diferente.
Prefiro ir lá e ter a experiência
de vida sendo eu mesmo. Mas hoje
sempre que eu entro em crise ainda
penso em duas opções,
que podem se realizar se a crise
for muito grande: criar ovelhas
no interior da Islândia ou
ser um estudioso da Torah em Jerusalém
ou Tsfat. Já cheguei perto
disso várias vezes, mas acabei
voltando atrás na decisão.
Filosofia.
Muitas. Mas acho que resumo tudo
em uma tentativa de levar uma vida
baseada na ética, no respeito
e na tolerância. Sou aberto
a mudanças. Procuro sempre
ser bem humorado, mesmo quando sou
mal humorado. E sou vegan radical,
por princípio.
Lembrança
mais marcante da infância.
Quando eu aprendi a ler. Achei mágico.
Pintar desenhar com a minha mãe,
eu chegava a ficar febril de tão
feliz. Lembro também de ser
bem silencioso, mas de ter dias
em que eu falava sem parar. Uma
outra memória que até
hoje eu guardo com muito carinho
e bastante nostalgia eram os passeios
das noites de Domingo, quando minha
mãe e meu pai (o Arthur)
me levavam para passear pela avenida
da praia, de carro. Ouvíamos
música, eu ficava olhando
a praia e a cidade, e dormia. Sempre
voltava dormindo, e era carregado
pra cama.
Melhor amigo(a).
Não gosto de falar em melhores
amigos. Todos os meus amigos que
fazem parte da minha vida cotidiana
de fato são meus melhores
amigos, e tenho sorte de trabalhar
ao lado de alguns deles.
Hobbies.
Ler, ir ao cinema, ficar com amigos,
irmãos, e o namorado.
Televisão.
Raramente, mas gosto de ver documentários
sobre as ciências e sobre
os animais. De resto, acho a maioria
da programação repulsiva.
Uma piada burra.
Filme.
“Nostalgia”, de Andrei
Tarkovsky e “O Espelho”,
do mesmo diretor.
Música.
Barulhos, adoro prestar atenção
a barulhos ordinários. Além
disso, Grouper, Yellow Swans, Prurient,
Luigi Nono, Xela, William Fowler
Collins (ouça no player abaixo),
Colleen, Burzum, entre outros.
Cheiro.
Pele, cheiro dos meus bichos, e
“Odeur 53?.
Tatuagens.
Considero os meus dois braços
fechados uma tatuagem só.
Fora essa, tenho mais 6.
Qual foi a primeira?
A primeira foi “soterrada”
pela tatuagem preta no meu braço
esquerdo. Era o desenho de uma sereia
do artista Odilon Redon.
E a mais recente?
A do meu queixo. Faz tempo que não
faço uma nova.
E qual é
a sua favorita?
Não tenho favorita, gosto
de todas, mas acho a do queixo especial.
Felicidade.
Produzir, trabalhar e ver arte.
Ficar em casa com meu namorado e
meus bichos, ou com a família,
também me faz feliz, apesar
de eu acabar ficando pouco com a
minha família.
Tristeza.
Ficar improdutivo e me deparar com
situações de intolerância
e falta de respeito.
Revistas.
Regularmente leio a “ArtForum”,
“Dazed and Confused”,
“i-D”, “Vogue
Itália”. O resto eu
não leio com tanta regularidade.
Sinto falta da “Dutch”.
Livro.
“O Processo”, de Franz
Kafka.
O que você
aprendeu de fato na faculdade?
A ter as dúvidas certas.
E o que a vida
lhe ensinou de mais importante?
A não ficar estagnado e a
correr atrás das minhas crenças,
mesmo que sozinho.
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