O
punk já é considerado
um clássico. Ou seja: nunca
vai sair de moda. Pode ter certeza
de que, neste exato momento, em
algum lugar do mundo, alguém
está criando uma coleção
com referências punk. Ainda
mais agora, depois da morte de Malcom
McLaren, o pai do punk. E viu que
hoje, dia do funeral dele, em Londres,
seu filho pediu “um minuto
de loucura” em homenagem ao
pai? Muito bom, em vez do tradicional
minuto de silêncio, o minuto
de loucura sugere colocar uma boa
música bem alto no som.
E como o mundo
anda careta, não? Cheio de
gente certinha ou que quer parecer
certinha o tempo todo, com paparazzi,
blogueiros e “jornalistas”
servindo de bedéus da boa
conduta (o problema de ser famoso
é que todo mundo fica esperando
você dar uma escorregada,
declarou recentemente, se não
me engano, Zeca Pagodinho).
Gosto de pessoas
que andam pelo lado da calçada
que pega sol, que se arrisca e insiste
em fazer as coisas de outros jeitos.
Patti Smith, por exemplo.
Com alegria li
na “Folha” que ela acaba
de publicar sua autobiografia, “Just
Kids” (editora Ecco), que
a Companhia das Letras lança
no Brasil no final do ano. Patti
Smith é pura inspiração.
E referência.
Cantora e compositora,
poeta, fotógrafa, ativista,
roqueira, ícone. Foi um de
seus melhores amigos, Robert Mapplethorpe
(1946-1989), quem descobriu seu
potencial iconográfico, com
as fotos feitas nos anos 70, como
na da capa para o genial álbum
“Horses”.
Cabelo sempre desgrenhado,
corpo franzino, rosto forte de sobrancelhas
marcantes, mas uma instigante delicadeza
vinda de algum lugar, uma fragilidade
emergindo de algum viés de
sua personalidade. Andrógina.
Fã de Rimbaud, ela queria
ser um menino quando adolescente,
e possivelmente de sua puberdade
manteve o culto a discreta penugem
na pele sobre os lábios.
Nesta hora de masculino/feminino
na moda, e na volta dessa androginia
dos 90, não por acaso Jamie
Bochart volta a ser it-girl. E a
modelo não esconde sua fascinação
por Patti Smith, e ela que também
é cantora, dividiu no ano
passado o palco com a musa. Outro
ícone, a brasileira Raquel
Zimmermann, também
declarou que Patti Smith é
uma de suas referências mais
constantes.
Coturno ou sapatos pretos, camiseta
surrada, paletós pretos,
suspensórios, sobreposições
e peças desestruturadas.
E muita camisa branca, eventualmente
uma gravata preta, fininha.
A alta moda também
se rendeu ao estilo único
de Patti Smith. Basta ver os desfiles
de Ann Demeulemeester, que sempre
remixam o visual de PS. E muitas
vezes tem suas músicas como
trilha sonora, encerrando sempre
com o hit “Because the Night”.
Yohji Yamamoto manda roupas para
Patti Smith, e nela elas ficam ainda
mais lindas e cheias de personalidade.
Além de
Mapplethorpe, Robert Frank (outro
de meus fotógrafos favoritos)
estabeleceu uma linda parceria com
Patti Smith, um vídeo para
“Summer Cannibals”.
E, mais recentemente, o fotógrafo
de moda Steven Sebring lançou
seu documentário “Dream
of Live”, resultado de onze
anos em que acompanhou a rock star
pelo mundo. O filme ganhou prêmio
no festival de cinema de Sundance
e também virou livro e exposição
itinerante (foi exibido no ano passado
na TV a cabo brasileira e eu tive
a sorte de ver algumas vezes). O
projeto começou quando ele
foi fotografá-la para a revista
“Spin” e os dois tiveram
identificação imediata.
O diretor disse que decidiu filmá-la
porque ela tem “urgência”,
e que ele valoriza pessoas que justamente
saiam de suas zona de conforto.
Total. E que ele gostaria de deixar
algo para o mundo além de
campanhas de moda. Bom pensar assim.
Respire Patti Smith.
E inspire-se por ela também.
Palô
***
Quando tinha 19
anos, Patricia Lee Smith teve um
problema. Numa época em que
sexo e casamento eram “absolutamente
sinônimos”, ela engravidara
de um garoto da escola. Enquanto
esperava o nascimento do bebê
– que iria para a adoção
–, Patricia sonhava com uma
vida excitante como a de seus ídolos.
Não desgrudava do livro “Iluminações”,
de Rimbaud, e do disco “Blonde
on Blonde”, de Bob Dylan.
Nem podia imaginar o que estava
ainda por vir quando trocou a pacata
Nova Jersey pela cosmopolita Nova
York. Em pouco menos de dez anos,
ela iria encontrar os principais
músicos, escritores e artistas
norte-americanos das décadas
de 1960 e 70 e lançaria “Horses”
(1975), disco que redefiniu o papel
da mulher e da poesia dentro do
rock and roll. Ela se tornou Patti
Smith. O relato dessa carreira vertiginosa
é feito pela própria
cantora, hoje com 63 anos, na autobiografia
“Just Kids” (apenas
garotos), lançada no exterior
-a versão brasileira deve
chegar aqui no final do ano, pela
Companhia das Letras. Mais do que
elencar fatos, Patti centra a narrativa
no relacionamento com o fotógrafo
Robert Mapplethorpe e nos esforços
hercúleos para alcançar
a fama. Assim como o livro “Like
a Rolling Stone”, “Just
Kids” é a descrição
detalhada da construção
de um mito.
“Foi o verão
em que [John] Coltrane morreu [...]
Hippies levantavam os braços
vazios e a China explodia a bomba
H. Jimi Hendrix colocava fogo em
sua guitarra em Monterey [...] Havia
tumultos em Newark, Milwaukee e
Detroit [...] Era o verão
do amor. E nessa atmosfera hostil
de mudanças, um encontro
inesperado mudou o curso da minha
vida. Foi o verão em que
conheci Robert Mapplethorpe”,
escreve Patti.
O fotógrafo, que ganhou fama
mundial com suas imagens homoeróticas
antes de morrer em decorrência
de Aids em 1989, era, naquela época,
apenas mais um garoto com pretensões
artísticas. Mesmo após
terminarem a relação
amorosa e Mapplethorpe descobrir-se
homossexual, os dois seguiram amigos
até o final. Era uma troca
mútua de influências
artísticas e companheirismo.
O livro abre e termina com o relato
dos momentos finais do artista.
Quem leu “Mate-me por Favor”
(Legs McNeil e Gillian McCain, 1996),
livro definitivo sobre o nascimento
da cena punk na Nova York dos anos
1970, pode achar “Just Kids”
chapa-branca demais. Se, em “Mate-me”,
por exemplo, Patti e Robert são
descritos com sarcasmo como um casal
brega tentando entrar de penetra
no lendário restaurante/balada
Max’s Kansas City para serem
vistos pelo artista plástico
Andy Warhol, em “Just Kids”
prevalece uma atmosfera de sonho
e cativante ingenuidade. No entanto,
a narrativa de Patti fascina justamente
porque é idealizada. Ela
é a mulher que levou a poesia
de Rimbaud ao universo do punk,
vale lembrar. “Jesus morreu
pelos pecados de alguém,
mas não pelos meus”,
ela já cantava no primeiro
verso da primeira música
(a versão de “Gloria”,
do Them) de seu primeiro disco.
“JUST KIDS”
Autora: Patti Smith
Editora: Ecco
Quanto: R$ 68, em média (importado;
304 págs.)
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