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Pensata da Palô #8: respire Patti Smith e inspire-se por ela também

Por Erika Palomino

Adicionado em 27/04/2010
 
Gosto de pessoas que andam pelo lado da calçada que pega sol, que se arrisca e insiste em fazer as coisas de outros jeitos. Patti Smith, por exemplo, que acaba de publicar sua autobiografia, "Just Kids"
 
Respire Patti Smith. E inspire-se por ela também © Reprodução
 

O punk já é considerado um clássico. Ou seja: nunca vai sair de moda. Pode ter certeza de que, neste exato momento, em algum lugar do mundo, alguém está criando uma coleção com referências punk. Ainda mais agora, depois da morte de Malcom McLaren, o pai do punk. E viu que hoje, dia do funeral dele, em Londres, seu filho pediu “um minuto de loucura” em homenagem ao pai? Muito bom, em vez do tradicional minuto de silêncio, o minuto de loucura sugere colocar uma boa música bem alto no som.

E como o mundo anda careta, não? Cheio de gente certinha ou que quer parecer certinha o tempo todo, com paparazzi, blogueiros e “jornalistas” servindo de bedéus da boa conduta (o problema de ser famoso é que todo mundo fica esperando você dar uma escorregada, declarou recentemente, se não me engano, Zeca Pagodinho).

Gosto de pessoas que andam pelo lado da calçada que pega sol, que se arrisca e insiste em fazer as coisas de outros jeitos. Patti Smith, por exemplo.

Com alegria li na “Folha” que ela acaba de publicar sua autobiografia, “Just Kids” (editora Ecco), que a Companhia das Letras lança no Brasil no final do ano. Patti Smith é pura inspiração. E referência.

Cantora e compositora, poeta, fotógrafa, ativista, roqueira, ícone. Foi um de seus melhores amigos, Robert Mapplethorpe (1946-1989), quem descobriu seu potencial iconográfico, com as fotos feitas nos anos 70, como na da capa para o genial álbum “Horses”.

Cabelo sempre desgrenhado, corpo franzino, rosto forte de sobrancelhas marcantes, mas uma instigante delicadeza vinda de algum lugar, uma fragilidade emergindo de algum viés de sua personalidade. Andrógina. Fã de Rimbaud, ela queria ser um menino quando adolescente, e possivelmente de sua puberdade manteve o culto a discreta penugem na pele sobre os lábios.

Nesta hora de masculino/feminino na moda, e na volta dessa androginia dos 90, não por acaso Jamie Bochart volta a ser it-girl. E a modelo não esconde sua fascinação por Patti Smith, e ela que também é cantora, dividiu no ano passado o palco com a musa. Outro ícone, a brasileira Raquel

Zimmermann, também declarou que Patti Smith é uma de suas referências mais constantes.
Coturno ou sapatos pretos, camiseta surrada, paletós pretos, suspensórios, sobreposições e peças desestruturadas. E muita camisa branca, eventualmente uma gravata preta, fininha.

A alta moda também se rendeu ao estilo único de Patti Smith. Basta ver os desfiles de Ann Demeulemeester, que sempre remixam o visual de PS. E muitas vezes tem suas músicas como trilha sonora, encerrando sempre com o hit “Because the Night”. Yohji Yamamoto manda roupas para Patti Smith, e nela elas ficam ainda mais lindas e cheias de personalidade.

Além de Mapplethorpe, Robert Frank (outro de meus fotógrafos favoritos) estabeleceu uma linda parceria com Patti Smith, um vídeo para “Summer Cannibals”. E, mais recentemente, o fotógrafo de moda Steven Sebring lançou seu documentário “Dream of Live”, resultado de onze anos em que acompanhou a rock star pelo mundo. O filme ganhou prêmio no festival de cinema de Sundance e também virou livro e exposição itinerante (foi exibido no ano passado na TV a cabo brasileira e eu tive a sorte de ver algumas vezes). O projeto começou quando ele foi fotografá-la para a revista “Spin” e os dois tiveram identificação imediata. O diretor disse que decidiu filmá-la porque ela tem “urgência”, e que ele valoriza pessoas que justamente saiam de suas zona de conforto. Total. E que ele gostaria de deixar algo para o mundo além de campanhas de moda. Bom pensar assim.

Respire Patti Smith. E inspire-se por ela também.

Palô

***

Quando tinha 19 anos, Patricia Lee Smith teve um problema. Numa época em que sexo e casamento eram “absolutamente sinônimos”, ela engravidara de um garoto da escola. Enquanto esperava o nascimento do bebê – que iria para a adoção –, Patricia sonhava com uma vida excitante como a de seus ídolos. Não desgrudava do livro “Iluminações”, de Rimbaud, e do disco “Blonde on Blonde”, de Bob Dylan. Nem podia imaginar o que estava ainda por vir quando trocou a pacata Nova Jersey pela cosmopolita Nova York. Em pouco menos de dez anos, ela iria encontrar os principais músicos, escritores e artistas norte-americanos das décadas de 1960 e 70 e lançaria “Horses” (1975), disco que redefiniu o papel da mulher e da poesia dentro do rock and roll. Ela se tornou Patti Smith. O relato dessa carreira vertiginosa é feito pela própria cantora, hoje com 63 anos, na autobiografia “Just Kids” (apenas garotos), lançada no exterior -a versão brasileira deve chegar aqui no final do ano, pela Companhia das Letras. Mais do que elencar fatos, Patti centra a narrativa no relacionamento com o fotógrafo Robert Mapplethorpe e nos esforços hercúleos para alcançar a fama. Assim como o livro “Like a Rolling Stone”, “Just Kids” é a descrição detalhada da construção de um mito.

“Foi o verão em que [John] Coltrane morreu [...] Hippies levantavam os braços vazios e a China explodia a bomba H. Jimi Hendrix colocava fogo em sua guitarra em Monterey [...] Havia tumultos em Newark, Milwaukee e Detroit [...] Era o verão do amor. E nessa atmosfera hostil de mudanças, um encontro inesperado mudou o curso da minha vida. Foi o verão em que conheci Robert Mapplethorpe”, escreve Patti.
O fotógrafo, que ganhou fama mundial com suas imagens homoeróticas antes de morrer em decorrência de Aids em 1989, era, naquela época, apenas mais um garoto com pretensões artísticas. Mesmo após terminarem a relação amorosa e Mapplethorpe descobrir-se homossexual, os dois seguiram amigos até o final. Era uma troca mútua de influências artísticas e companheirismo. O livro abre e termina com o relato dos momentos finais do artista. Quem leu “Mate-me por Favor” (Legs McNeil e Gillian McCain, 1996), livro definitivo sobre o nascimento da cena punk na Nova York dos anos 1970, pode achar “Just Kids” chapa-branca demais. Se, em “Mate-me”, por exemplo, Patti e Robert são descritos com sarcasmo como um casal brega tentando entrar de penetra no lendário restaurante/balada Max’s Kansas City para serem vistos pelo artista plástico Andy Warhol, em “Just Kids” prevalece uma atmosfera de sonho e cativante ingenuidade. No entanto, a narrativa de Patti fascina justamente porque é idealizada. Ela é a mulher que levou a poesia de Rimbaud ao universo do punk, vale lembrar. “Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não pelos meus”, ela já cantava no primeiro verso da primeira música (a versão de “Gloria”, do Them) de seu primeiro disco.

“JUST KIDS”

Autora: Patti Smith
Editora: Ecco
Quanto: R$ 68, em média (importado; 304 págs.)

Fonte:
http://ffw.com.br/ffwblog/pensata-da-palo-8-respire-patti-smith-e-inspire-se-por-ela-tambem/
 

 

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