| Sobrevivi
à Primark. Mas admito que
comprei uma ou outra coisinha…
Um nome é
comum em todas as listas de “dicas”
(odeio a palavra) para quem vai
a Londres: Primark. A rede de moda
a preços baixos é
um dos maiores fenômenos do
varejo da atualidade. Uma camiseta
a uma libra. Seis meias por 3 libras.
Um vestido a seis libras. Três
cuecas por 2 libras.
Diante desses preços,
não tem como não pensar
em como esta roupa é fabricada,
transportada, em que margem de lucro
eles colocam nas peças. Bem,
o sistema é capitalista,
logo, é baseado no lucro.
Caridade é que não
é. Então para uma
marca ter lucro numa camiseta de
uma libra… Waal.
Muitos jornalistas
se fizeram as perguntas acima, e
vieram à tona recentemente
matérias e documentários
sobre condições de
trabalho em países como Bangladesh,
Índia e China. A Primark
diz que consegue os bons preços
nas negociações com
os fornecedores, na quantidade dos
pedidos e no volume das negociações,
e no fato de as peças serem
produzidas em pouca variação
de tamanhos e cores. Nega que incentive
condições sub-humanas
de trabalho.
Consumidores éticos
passam longe dali. Quem não
pode ou não quer pagar, ou
quer pagar de esperto, esses vão
(são imensas as discussões
nos fóruns de moda em blogs
e sites). Dentro da loja, as pessoas
compram como se não houvesse
amanhã. Como se estivessem
na liquidação da vida
delas, adquirindo coisas valiosíssimas
a preço de banana. Histeria
total. Se você ficar parado,
é levado no fluxo. As filas
nos provadores e nos caixas são
imensas. Os consumidores são
meio tratados feito gado e não
há vendedores para dar qualquer
informação, apenas
para dobrar as peças novamente
nas prateleiras.
Ter passado pela
loja da Primark de Oxford Street
foi uma das experiências mais
bizarras a que já me submeti.
Parece um transe louco, uma bad
trip, um pesadelo. Algo assim. Saindo
de lá, andando pela rua (também
cheia), você continua tentando
desviar das pessoas, mas fica ainda
com a sensação daquilo
na mente. Aquele rush, aquela adrenalina
que tenta de toda forma contagiar
você; as pessoas em surto
sem olhar na cara uma das outras,
apenas atrás da melhor oferta,
revirando araras, prateleiras e
o que for. Pior é que contamina
mesmo, e você acaba efetivamente
LEVANDO alguma coisa. Afinal, você
não pode perder aquela oportunidade.
Pra mim, não
levei nada. Da minha parte, prefiro
pagar um pouco a mais pelo sossego
de poder andar entre os corredores
de uma loja. Experimentar ou escolher
com calma. Sem estresse. Prefiro
me permitir a isso ou prefiro ficar
sem comprar. Mas entendo que para
muitos essa opção
não existe (este é
outro tópico dos fóruns).
Nem passei no feminino:
além de eu estar completamente
atordoada, preferi colar em S. e
P., os dois rapazes que me acompanhavam,
apavorada de me perder naquela turba
ensandecida. Admito: para meus filhos,
comprei. Para meu pai também.
Estou levando para ele um suéter
de 5 libras que faço questão
de entregar com o preço.
Ele vai ficar feliz nem tanto pelo
presente. Mais por achar que, finalmente,
aprendi a não gastar dinheiro
com roupas de grife. |