O conceito de varejo
emocional não é exatamente
novo, mas sua relevância aumenta
nesses tempos meio bicudos.
Já se sabe, também,
não de hoje, que a maior
parte das compras se dá por
impulso – sobretudo em relação
ao mercado feminino. Que atire a
primeira pedra quem nunca sucumbiu
/ se endividou por uma bolsa escândalo
ou um par de sapatos que absolutamente
não precisava mas subitamente
descobriu que não poderia
mais viver sem.
Tem também aquele velho
pretexto do “ah, eu mereço”,
quando você respira fundo
e fala isso pra si mesmo, justificando
a compra de algo que está
ululantemente acima de suas posses
naquele momento. Chama-se indulgência.
Merecimento não é
exatamente o ponto, mas conseguir
pagar a fatura do cartão
no mês seguinte.
Sentimos na pele que as marcas
tem tentado criar as tais “experiências
emocionais” ou “conectividade
emocional” com o consumidor.
Que muita gente ainda acha que se
trata apenas de colocar um DJ na
loja, te oferecer café ou
champagne, ou aquela chatice de
perguntar seu nome. Festas, brindes
“diferenciados” para
clientes “VIP”…
E agora páginas no Facebook
e perfis no Twitter. Que só
vão merecer atenção
quando conseguirem dar um algo a
mais, mais informação
para o leitor / consumidor. De outra
forma, é só mais uma
fonte marketeira que, mal-feita,
dá raiva e não seduz
ninguém.
E o valor emocional das roupas?
Isso me interessa, e muito. O que
uma pessoa está vestindo
pode mudar completamente seu comportamento.
Por exemplo, sentir-se bem vestido
num ambiente profissional ou socialmente
hostil pode dar a você a confiança
necessária para aquele passo
corajoso que você queria dar
mas nunca conseguia. Estar com a
roupa “da moda”, em
determinados círculos, pode
fazer você ser percebido como
uma pessoa atualizada, moderna,
informada etc. etc. O que em determinados
momentos pode fazer a diferença.
Mais do que tudo, pode fazer você
simplesmente “se sentir bem”.
E olha que hoje em dia isso não
é pouca coisa, não.
Do outro lado, sentir-se “arrumado
demais” pode fazer você
sentir um idiota e, muitas vezes,
até ir embora do lugar, não?
E quando isso acontecer diga que
chegou de algum lugar bafo ou que
simplesmente está de saída
para outro compromisso e assuma
em alto e bom som que “errou
de look”.
Achou bobo? Então diga que
nunca pagou mico num desses dias
que o tempo virou do nada e você
saiu de casa vestido como se estivesse
no outro hemisfério? Em São
Paulo é muito comum e dá
origem ao conhecido “efeito
cebola”: camadas e mais camadas
de blusas e casacos para que possamos
enfrentar as (pelo menos) três
longitudes do dia paulistano.
Roupa nova. Alguém sabe
que é nova, além de
você? Mas a gente não
sai por aí todo pimpão
(como diria minha querida Barbara
Gancia) na estreia de uma peça,
ainda que seja uma simples camiseta?
Para outros, entretanto, nada pode
deprimir mais um ser humano do que
usar meia rasgada. Pauperismo legítimo!
E o prazer que dá usar um
vestido com significante –
e, se possível, com significado:
a roupa que você usou no dia
em que beijou fulano, por exemplo???
Ou no casamento da sua melhor amiga?
Ou no Reveillon que te trouxe mais
sorte? Na formatura do seu irmão?
Tem também cores que colocam
qualquer pessoa pra cima. Moletons
que confortam sua quieta depressão.
Estampas para te animar. Decotes
para ressaltar suas carências.
Saltos para elevar sua auto-estima.
E ainda tem gente que acha que
roupa é futilidade.
|